• 1903-1905 c.  

    Sobre esse período em que a família Malfatti morou na Barra Funda, Anita relata, posteriormente, que se submeteu, então, a uma experiência para se decidir quanto a seu caminho artístico, se poesia ou pintura:  

    “Eu tinha 13 anos. E sofria, porque não sabia que rumo tomar na vida. Nada ainda me revelara o fundo da minha sensibilidade, o pequeno gênio dos destinos terrestres não me segredara ao ouvido o caminho que deveria seguir. Resolvi, então, me submeter a uma estranha experiência: sofrer a sensação absorvente da morte. Achava que uma forte emoção, que me aproximasse violentamente do perigo, me daria a decifração definitiva da minha própria personalidade. E veja o que fiz: Nossa casa ficava perto da estação da Barra Funda. Um dia saí de casa, amarrei fortemente as minhas tranças de menina, deitei-me debaixo dos dormentes e esperei o trem passar por cima de mim. Foi uma coisa horrível, indescritível! O barulho ensurdecedor, a deslocação de ar, a temperatura asfixiante deram-me uma impressão de delírio e de loucura. E eu via cores, cores e cores riscando o espaço, cores que eu desejaria fixar para sempre na retina assombrada. Foi a revelação: voltei decidida a me dedicar à pintura. E hoje, tantos anos passados, tenho a serena certeza de não me ter enganado. O meu caminho estava certo...” Luiz Martins. Em São Paulo , com Anita Malfatti. Vamos Ler!, RJ, 28/12/1939
  • 1904-1905  

    Durante esses anos, Eleonora Elisabeth Krug Malfatti  (Bety), em oposição aos costumes da época, não se fecha em copas: ela dirige um estabelecimento de ensino em São Paulo. Correio Paulistano, SP, 27/4/1904

    Correio Paulistano, SP, 5/1/1905

    Posteriormente, a mãe de Anita oferece aulas particulares de línguas por anos. Bety também estuda pintura e participa da vida artística da cidade.  

  • 1906  

    Anita Malfatti forma-se no Mackenzie College, com louvor. [VER]: Diploma em inglês, datado: São Paulo, 23 nov. 1906.  Arquivo IEB-USP  

    A artista afirma que começou a lecionar logo após sua formatura, mas que, diferentemente de suas colegas, esperava se dedicar à pintura:  

    “Pensava e pensava; comecei a lecionar e sempre em pensamento, durante e depois do trabalho eu só queria estudar pintura. Minhas colegas, as mais chegadas, todas casando-se muito moças, não entendiam meu desejo - tinham pena de eu não pensar em casamento.” [VER]:  Anita Malfatti. A chegada da arte moderna no Brasil. Manuscrito Conferência na Pinacoteca do Estado de São Paulo, 1951 [C.PESP, 1951] Fundo AM. Arquivo, IEB-USP
  •  

    Escreve Marta Rossetti Batista que Babynha começa a estudar pintura com a mãe.  

    Sabe-se que Bety Malfatti, por sua vez, estudou com o pintor Carlo de Servi, italiano de Lucca, na época residente em São Paulo.  

    Ao menos a partir de 1907, a mãe de Anita participa de exposições no Rio de Janeiro e em São Paulo, presente, inclusive, na I e na II Exposições Brasileiras de Belas Artes, mostras de importância para a capital paulista naquele início do século XX.  

    A “jovem viúva”, ativa, portanto, trabalhou e participou da movimentação artística da época:
  • 1907-1908  

    Em 1907, Bety Malfatti integra a Comissão Organizadora do Estado de São Paulo que escolhe trabalhos para representar, no Rio de Janeiro, a capital paulista na Exposição Nacional de 1908, seção “Trabalhos de Senhoras” (pinturas etc.), mostra organizada para as comemorações do 1º Centenário da Abertura dos Portos do Brasil.

    Correio de S. Paulo, SP, 20/11/1907

    Em dezembro, com seu filho Guilherme, Bety viaja pelo Estado para divulgar a referida exposição:  

    Correio Paulistano, SP, 27/12/1907

     

  •  

    Diploma da Exposição Nacional de 1908, desenhado por Oscar Pereira da Silva

  • 1909 c.  

    Segundo afirmam, uma das primeiras pinturas de Anita Malfatti seria nomeada de O BURRINHO CORRENDO, possivelmente de 1909, cópia de uma capa de revista espanhola, como afirmam*.  

    Afirma-se ainda que outra obra de sua autoria, que foi identificada com o título CABEÇA DE VELHO COM ENXADA NO OMBRO, também seria uma de suas primeiras pinturas. * Em 2018, conversando com Sylvia Malfatti, uma das sobrinhas de Anita Malfatti, ela reafirma essa fala, já registrada por Marta Rossetti Batista.
  • 1910 c.  

    Formada com educação exemplar e, como sua mãe, uma mulher convicta, Anita Malfatti  aceita o presente de seu tio: uma viagem para estudar na Europa.  

    “Um dia visitando umas amigas disse-me a mãe delas: ‘Vou levar minhas filhas a Berlim, afim de terminarem sua educação musical. Porque você não nos acompanha?’ – Eu achava isto impossível, visto minha mãe ser viúva, lecionar o dia todo, e minha avó, com quem morávamos, viver entrevada na cama com reumatismo. Procurei uma de minhas tias, falei sobre o convite que me fizera aquela Senhora. Achou ela a ideia muito boa e prometeu fazer o possível para ajudar-me a realizar meu sonho. ‘Coragem, você há de ir, vou falar com sua mãe; você verá.’ No Domingo seguinte meu tio George chamou-me e perguntou se era mesmo verdade que eu queria estudar pintura na Europa; fiquei tão admirada com o resultado da conversa que mal pude responder. Ele me fez uma única recomendação, que não esqueci: – ‘Nunca aceite o medíocre’. Fiz a ele esta promessa, que cumpri da melhor maneira possível.” [VER]: Anita Malfatti. A chegada da arte moderna no Brasil. Datiloscrito Conferência na Pinacoteca do Estado de São Paulo, 1951 [C. PESP, 1951] Fundo AM. Arquivo, IEB-USP
  • 1910  

    Em agosto, Anita Malfatti embarca para a Alemanha, no paquete Cap Arcona, com as amigas Hermantina e Helena [Lucy] Shalders, que seguiam para estudar música.  

    Com elas, também viaja a mãe das irmãs, Estephania Ferreira Pinto Shalders, para estudar pintura. Seu marido, Carlos Gomes de Sousa Shalders, era professor da Politécnica de São Paulo.  

    Jornais de São Paulo e do Rio de Janeiro noticiam a saída do luxuoso vapor Cap Arcona para Europa em 22 de agosto. [Cf. Correio Paulistano, SP, 11/4/1910]
  •  

    Fotografia de um dos mais luxuosos navios da época, o Vapor Cap Arcona Brasil Magazine, SP, 1910            

     

  • 1910  

    Anita Malfatti estabelece-se em Berlim, de início na Pensão Hereforth. [Cf. MRB, p. 54]  

    “Quando cheguei à Europa, vi pela primeira vez a pintura. Quando visitei os museus fiquei tonta. Comecei a querer descobrir no que os grandes santos das escolas italianas eram diferentes dos santinhos dos colégios. Tanto me encantavam uns quanto os outros. Fiquei feliz porque a emoção não era de deslumbramento, mas de perturbação e de infinito cansaço diante do desconhecido. Assim passei semanas voltando diariamente ao Museu de Dresde[n]. Em Berlim continuei a busca e comecei a desenhar. Desenhei seis meses dia e noite.” Anita Malfatti. “1917”. Revista RASM, SP, 1939